Estou passando por um momento em minha vida muito diferente de todos que eu já vivi, até então. E olha que já tive experiências muito marcantes no decorrer da minha história. Mas este, tem superado a todos.
E quando reflito o que tem diferenciado esse momento da minha vida de todos os outros que já vivi, percebo que não é pelas pessoas que têm e tiveram participação significativa nessa etapa e nem pelos fatos que ocorreram. O que mais tem marcado essa época, é o meu reflexo no espelho. É isso aí. A imagem que tenho visto quando paro para uma auto-análise, está longe de ser a que eu gostaria de ver refletida, ou até mesmo, muito diferente da que até então eu via (ou dava conta de ver). E não é a questão estética, apesar de não estar totalmente satisfeita com minha aparência, mas é com aquilo que tenho visto dentro e, costumo dizer que a imagem de dentro é o nosso caráter.
Rubem Alves tem uma crônica de nome “A Madrasta e o Espelho”, onde ele fala um pouco dos horrores que um espelho pode gerar, simplesmente pela capacidade que tem de refletir. Ele tem razão.
Pois bem, não tenho visto uma pessoa "bela" refletida no espelho. A imagem que tem refletido em meus espelhos são, por vezes, assustadoras! Com o espelho não dá pra fazer como em fotos, onde você se posiciona com seu melhor perfil e sorriso e, pronto, a bela imagem (estrategicamente montada para ser) poderá se eternizar. No reflexo dos espelhos enxergamos a pessoa real, sem maquiagens e poses milagrosas. Não há ilusões, no reflexo de um espelho, só existe você.
A terapia é um processo que deve funcionar como um espelho, onde as pessoas têm a oportunidade de, ao escutarem a si mesmas, conseguirem ver a sua própria imagem refletida. E eu, como psicóloga, tenho visto as pessoas se espantarem com a imagem refletida... É espantoso mesmo, não é nada agradável.
Porém, pode ser libertador... A bíblia diz, “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” É mais ou menos isso que ocorre. Quando me deparo com a verdade refletida, abre-se um caminho para a liberdade. Primeiro porque você tem a oportunidade de desconstruir uma imagem que é imposta pelo outro, você sai da hipocrisia. Carregar as máscaras sociais é também pesado e sofrido, às vezes mais do que a própria realidade. Segundo, porque sem a hipocrisia, você enxerga o que realmente precisa ser mudado. Esse é o lado bom de olhar o reflexo, a possibilidade da mudança. Será necessário muito mais que ferramentas cirúrgicas para que a imagem refletida possa ser menos assustadora. É um trabalho árduo e desafiador... Mas é possível. Quando você perde sua reputação, torna-se possível a construção de um novo caráter, fundamentado na verdade. Hoje, minha imagem no espelho me faz sofrer, mas me impulsiona para o novo que precisa ser construído. E fico agradecida pelo momento único que estou vivendo, pois a partir dele eu tive o privilégio de ver meu verdadeiro reflexo. Viva os espelhos!